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Dor altera personalidade
e chega a provocar depressão
Dores físicas também afetam o psiquismo do paciente. A convivência
prolongada com o sofrimento crônico pode levar a pensamentos suicidas e
até a transtornos mentais mais sérios, como a depressão. Como corpo e
mente são inseparáveis, tudo que afeta um, afeta o outro.
Por causa dessa interatividade, ao mesmo tempo que o estresse emocional
pode desencadear um processo doloroso (como úlcera gástrica, por exemplo),
a dor modifica a relação do indivíduo com o mundo. "A dor conduz a um
retraimento da pessoa sobre si mesma", afirma o psicanalista e professor
Rubens Volich, 46, do Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo.
Para ele, além de aliviar a dor, é necessário compreendê-la, já que ela
pode ser sinal de outros sofrimentos não-expressos. "Entender a função de
determinada síndrome dolorosa potencializa os recursos terapêuticos",
completa.
A visão psicanalítica da dor é ampla. Para a psicanálise, o homem sofre
também por medo, angústia ou tristeza. Para a medicina, dor é um estado de
exceção, vinculado a uma lesão física ou disfunção biológica.
Há consenso, entretanto, no sentido de evitar que a dor vire o centro da
vida dos pacientes. Estudo do Hospital das Clínicas da USP realizado em
1995 mostrou como o sofrimento altera a sociabilidade. Segundo a pesquisa,
mais de 90% dos portadores de dor crônica tornam-se agressivos,
irritadiços ou deprimidos.
Nos EUA, levantamento realizado em 2000 pela indústria farmacêutica Purdue
revelou que 57% dos doentes com dor crônica sentem-se "cansados o tempo
todo". Outros 49% afirmaram sentirem-se "muito mais velhos do que
realmente são", e mais de 30% dos mil entrevistados disseram que às vezes
sentem dores tão intensas que prefeririam morrer.
Estigma
A depressão, aliás, está na pauta da OMS (Organização Mundial da Saúde)
como um dos mais importantes males do futuro. Hoje, o transtorno já é a
quarta causa de incapacitação no mundo. Em 2020, será a segunda -atrás
apenas do grupo de doenças cardíacas. Estima-se que 121 milhões de pessoas
ao redor do mundo estejam, neste momento, deprimidas.
A depressão, mais do que mal estar, causa também mortes. A OMS calcula que
10% a 15% dos deprimidos tentam suicídio. Do total de um milhão de pessoas
que se matam anualmente, 60% delas são portadoras de depressão ou
esquizofrenia.
Dedicado à saúde mental, o último relatório anual da OMS aponta que 70
milhões de pessoas são hoje alcoolistas, 50 milhões têm epilepsia, 37
milhões sofrem com mal de Alzheimer e 24 milhões são esquizofrênicas.
No Brasil, o Ministério da Saúde estima que 3% da população -mais de 5,2
milhões de pessoas- sofra de transtornos mentais. Para quem sofre de dor
crônica, a incidência é de 30%.
Na opinião do psiquiatra da Secretaria de Segurança Pública do Paraná,
Cesar Skaf, esses números estão aquém da realidade. "O transtorno de humor
é subdiagnosticado. A maioria dos médicos não está preparada para o
diagnóstico", diz.
O próprio comportamento do doente contribui para a subnotificação. "O
paciente não se dá conta, ou nega, as questões emocionais. Muitas vezes é
mais fácil se queixar da dor física do que da psíquica", avalia Betty
Boguchwal, 46, psicóloga do Centro de Dor do HC.
Segundo relatório da OMS, até 70% dos portadores de distúrbios mentais não
procuram ajuda, seja por "estigma social, discriminação ou negligência".
Mas, mesmo que esse cenário de preconceito e despreparo fosse
completamente extinto, a guerra contra a dor não estaria vencida. Para o
diretor do Laboratório de Psicopatologia Fundamental da PUC-SP, Manoel
Tosta Berlinck, 65, o sofrimento é inescapável. "O humano é uma espécie
dolorida. Se acabar a dor, acaba o homem." |